Carta aos Pernambucanos

Depois que o Prefeito de Angra dos Reis mandou dizer aos pernambucanos que era muito bom fazer mais seis usinas nucleares na beira do São Francisco, mandei a eles a carta abaixo:

Aos meus amigos de Pernambuco

Tem razão o Prefeito de Angra. Uma usina nuclear é uma enorme construção muito bonita. Que oferece emprego a muitos trabalhadores para ser construída e depois empregos para funcionar – embora bem menos.

O grande problema, que ele parece ignorar, é que essas usinas são monstros adormecidos. Que tem que ser permanentemente alimentados com o pior veneno que os seres humanos conseguiram descobrir nas profundezas da terra: o urânio radioativo, que há os que o chamem de dragão da maldade. Os técnicos que cuidam do monstro colocam esse urânio no seu estômago, sob a forma de toneladas de pastilhas, enriquecidas com átomos quebráveis. Seu aparelho digestivo quebra então esses átomos, o que produz muito calor – tais átomos são portanto o combustível do reator nuclear. Este calor ferve a agua que está no estômago do monstro, e seu vapor move turbinas que criarão eletricidade. Como os pequenos dínamos que fazem com que se acendam as luzes de nossas bicicletas.

Mas já ai, o que parece ter sido uma descoberta genial começa a criar problemas. Um deles desmonta o mito de que essas usinas são a forma mais limpa de se produzir eletricidade. Porque que enquanto dorme o monstro também defeca. E são toneladas de pedaços dos átomos de urânio quebrados, já transformados em diferentes tipos de partículas mais venenosas do que o urânio que o monstro comeu, tirados do seu estômago uma vez por ano. Como o césio-137, do qual só 19 gramas mataram tanta gente em Goiânia, a partir de 1987. Ou como o plutônio, muitíssimo radioativo: um grama de plutônio mata quase imediatamente a pessoa que ele contamine. A metade de sua massa leva 24.100 anos para se desmanchar (o que tecnicamente se chama de sua “meia vida”).

Ou seja, uma usina nuclear não é como outras usinas de eletricidade. Nelas se lida com coisas muito perigosas. Que são as mesmas das bombas atômicas. E basicamente com a mesma tecnologia. Elas produzem duas coisas ao mesmo tempo: eletricidade e dejetos chamados de lixo atômico. Do qual pode ser separado o plutônio, que se tornou o combustível preferido para bombas.  O que nos faz desconfiar do interesse dos militares em usinas nucleares…

Mas este lixo mais do que sujo – uma herança maldita que já estamos legando para varias gerações de nossos descendentes, com as mais de 400 usinas existentes no mundo o produzindo continuamente – é um real pesadelo: ainda não se descobriu, em parte nenhuma do planeta Terra, onde escondê-lo com segurança durante milhões de anos, talvez pela eternidade… Mas os técnicos muito sabidos (somente em física e engenharia nuclear) que nos querem impingir esses monstros não se mostram muito preocupados. Nem levantam o assunto na propaganda mentirosa do seu comercio.

Mas, digamos, tudo bem enquanto esses monstros permanecem dormindo: tudo que defecam é imerso em grandes piscinas, de onde não sai nem cheiro – aliás se saísse não saberíamos porque radiações não tem cheiro. O problema é que a água dessas piscinas tem que ser permanentemente refrigerada. Isso também não nos contam… Porque as partículas do combustível usado que está nelas continuam se quebrando naturalmente e, portanto, produzindo muito calor. E podem explodir se por falta de sorte sua refrigeração parar… Por isso os desalmados que constroem esses monstros derramam promessas e fortunas às prefeituras (como aqui no Brasil em Angra dos Reis e nos municípios vizinhos), para que elas nos convençam a aceita-los dormindo em nosso quintal, emporcalhando-o com suas evacuações sem que nem o percebamos.

Mas ai de nós se os monstros acordam… Eles então mostram que são uma das invenções mais terríveis de cientistas frios e inconsequentes. Ao acordar eles vomitam tudo que engoliram e ainda está em seu estômago, com os muitos diferentes nomes das partículas em que o urânio se transformou. Os moradores da vizinhança tem então que fugir correndo, mal toquem as sirenes. Deixando para trás suas casas com tudo que tinham, rapidamente contaminado com o vômito do monstro. Porque as partículas radioativas que ele contém são invisíveis, não tem cor, não zumbem nem doem ao nos alcançarem. Só se vai saber, às vezes muitos anos depois, quem foi por elas contaminado, quando cânceres surgem não se sabe como no nosso corpo, quando menos se espera.

Se ele acordar ele próprio explodindo, muitos mais ainda serão atingidos pelo vômito, espalhado por nuvens que o vento levará onde quiser, a grandes distancias, sem que ninguém possa controlar. A radioatividade assim disseminada matará sem apelação ainda muito mais gente durante milhares de anos…

Mas, apesar disso tudo, até que dá para conviver muito tempo com o monstro, que é muito discreto e silencioso enquanto dorme. Pelo menos foi o que disse o Prefeito de Angra dos Reis.  Basta não acordá-lo e ficar aproveitando o dinheiro que seu irresponsável construtor distribui, até para coisas às quais nunca teríamos acesso. Mas quem viu uma sala de controle de uma usina sabe que essa paz é enganadora. É extremamente complexo o cuidado com a saúde do monstro. Não bastam enfermeiros ou enfermeiras dedicados. É preciso uma equipe de “operadores”, que arriscam ali dentro dele suas vidas, revezando-se dia e noite. Protegidos por vestimentas especiais, máscaras e luvas e mesmo escafandros para não receberem radiações.

Nessa sala dezenas de relógios, telas e mostradores indicam permanentemente a temperatura e a pressão do monstro, enquanto outros providenciam veneno suficiente para encher seu estomago. Uma falha no sistema ou uma pequena peça que se estraga, combinada com um descuido, complica de repente as coisas. Ou uma manutenção mal pensada dos aparelhos que mantem aquele corpo imenso em vida. Como aconteceu nos Estados Unidos e na União Soviética. Ou um acidente natural do lado de fora, um deslize de terra, como pode acontecer em Angra dos Reis. Uma inundação imprevista, como aconteceu no Japão. Ou mesmo a queda de um avião exatamente sobre a usina, por puro acaso ou intencional, como se temeu que acontecesse na Alemanha, quando um piloto suicida de um avião de linha fez cair seu avião numa região em que havia varias usinas. Hoje em dia até drones armados podem surgir não se sabe de onde…

Ou seja, o monstro adormecido pode inesperadamente acordar. E se levanta rápida e imediatamente, quando acorda. E se movimenta em segundos, apesar de todo o seu peso. O incontrolável toma então conta de tudo. E uma catástrofe social e ambiental acontece, como em Chernobyl e em Fukushima. Por mínima que seja, essa possibilidade existe. Não podemos nos esquecer que não há obra humana 100% segura.

Os efeitos de um desastre nuclear desse tipo só estarão começando a acontecer, no momento do desastre. Nesse mesmo momento é relativamente pequeno o numero dos que são vitimados. Mas esse número aumenta continuamente e muito, por muito tempo. Porque  ele espalha um quantidade enorme de partículas radioativas, que nos atingem silenciosamente, sem que nem o percebamos. Não será um acidente como outros. Em Fukushima, temeram que todo o país desaparecesse, quando três de seus monstros adormecidos acordaram e explodiram…

É preciso muita inconsciência para se aceitar uma usina nuclear em seu quintal. Mas a grande maioria das pessoas está pouco informada da realidade desses monstros. Aceita os argumentos e se deixa enganar pela enorme propaganda dos criminosos que os vendem, com interesses e intenções escondidas.

Um abraço do Chico Whitaker, um cidadão a quem um dia contaram tudo isso.
(25/10/2019)

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