Não há reatores totalmente seguros!

 José Goldemberg em entrevista para o Metro Campinas.
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Um dos mais renomados cientistas do Brasil, fala sobre o acidente nuclear japonês.
Ele discorda da opção nuclear por países que ainda têm outras fontes de energia que podem ser exploradas, como é o caso do Brasil.


O risco de uma tragédia nuclear no Japão chamou a atenção para os programas nucleares em todo o mundo. Para o físico da USP e “Prêmio Planeta Azul”, considerado o “Nobel” do meio ambiente, José Goldemberg, o Brasil tem de abandonar o projeto de expansão de usinas nucleares e buscar fontes de energia limpas. Leia a entrevista de Goldemberg ao Metro Campinas:
O que aconteceu no Japão?
Por causa do tsunami e do terremoto, o circuito de resfriamento do reator quebrou. Assim, a temperatura foi subindo e ele começou a fundir. A partir daí, ele começou a emitir uma quantidade enorme de substâncias radioativas.
Existem tipos diferentes de tecnologia aplicados aos reatores?
Os sistemas são todos semelhantes. O que faz deles seguros até certo ponto. No momento em que as bombas param e a circulação deixa de ocorrer,  os reatores fundem. Não há reatores totalmente seguros. É ilusão pensar isso.
Os japoneses fizeram refrigeração com água do mar. Com isso eles inutilizaram a usina de Fukushima?
Essa água que refrigera o reator tem que ser super purificada. Como o sistema falhou, eles colocaram a água do mar. Então, os reatores estão condenados. A idéia de recuperá-los acabou. Outro inconveniente resultante do uso da água do mar é que ela retorna ao oceano radioativa, como as autoridades detectaram altos índices de radioatividade no mar. Os peixes daquela região também estão contaminados. Esse acidente é muito grande. Em toda a era nuclear, esse é o segundo acidente mais grave, ficando atrás apenas de Chernobyl.
O quanto menos grave em relação a Chernobyl?
Ele só é mais leve porque em torno do urânio há uma cápsula de aço de proteção que contém boa parte da radioatividade. Em Chernobyl não tinha e a radioatividade foi toda pelos ares.
O que o Japão tem que fazer agora com essa usina?
Eles precisarão dar manutenção por dezenas, até centenas de anos. Terão de “enterrar” Fukushima, colocando uma grande camada de concreto e chumbo por cima. Afinal, não é possível carregar aquela radioatividade para um aterro.
Como o senhor avalia a questão do uso da energia nuclear pelo mundo?
Eu acredito que os países vão desenvolver outras opções para suprir essa necessidade. Porém, alguns deles vão ter dificuldades, como é o caso da França, Lá quase 80% da eletricidade gerada é por meio de reatores nucleares. A outra opção é o gás, que eles importam da Rússia. ou seja, esta é uma questão delicada.
O Brasil prevê a construção de outras quatro usinas no país. Como o senhor avalia isso?
O Brasil deveria procurar outras opções. O país é favorecido por essas outras alternativas facilmente. No estado de São Paulo, por exemplo, o bagaço de cana está produzindo eletricidade. E a quantidade já está equivalente ao que é produzido em Angra dos Reis. Sem contar que isso pode expandir. A decisão que deve ser tomada agora é não expandir para o Nordeste, porque ao invés de solução, o Brasil comprará um problema.
Qual o futuro dessa área no Japão e dos profissionais que tiveram contato com a radiação?
A questão é que essa situação ainda pode se agravar. A região será interditada por um tempo, já os operadores devem desenvolver doenças sérias.
Ainda existe risco de mais radiação ser liberada?
Existe sim. Existe uma piscina ao lado do reator, onde eles guardam as barras de urânio que já foram usadas. E essa é uma grande fonte de problema. O problema ainda não terminou.

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